O VAZIO INTERIOR

  O homem moderno necessita de uma contrapartida espiritual para o avanço externo fenomenal das duas últimas centenas de anos, porque nem todas as majestosas e impressionantes consecuções da ciência aplicada podem esconder o vazio interior de sua vida.

Precisa de automóveis e aviões, sim, mas precisa ainda mais de satisfações superiores e de uma mudança de orientação mental. Precisa fazer novas avaliações, descobrir ideias incomuns, criar novos pensamentos, expressar atitudes generosas, fazer experiências dispendiosas e, acima de tudo, precisa de um novo dinamismo espiritual.

Nunca, como hoje, foi tão importante para o homem haurir nas fontes divinas o alimento para sua mente e seu coração. De outro modo, a torre de Babel que a ciência, a civilização, a economia e a política vêm construindo juntas correrá o risco de desabar e esmagar seus adoradores.

Se o homem não fosse, realmente, mais que um animal, como querem nossos materialistas, estaria perfeitamente satisfeito com sua finitude mental e seus apetites físicos. Os animais estão satisfeitos, mas o homem não. Por quê? Porque qualquer coisa dentro dele o impele a buscar o Além, insta com ele para que se eleve ao Mais. E essa "qualquer coisa" é nada menos que a presença não descoberta de sua alma divina.

                                               

O homem perdeu quatro valiosas características que elevam e distinguem a criatura humana das criaturas animais: a fé num poder superior invisível, a humildade e a reverência à simples ideia desse poder e a capacidade de orar a ele.

Freud, por exemplo, denunciou a crença religiosa como uma ilusão de que os homens se livrariam numa sociedade mais evoluída e, todavia, ele próprio alimentava a ilusão de que a ciência por si só poderia proporcionar toda a orientação de que o homem precisava. Quantos homens, que em outro tempo pensaram como Freud, continuam a pensar assim, depois que a tenebrosa experiência da guerra científica lhes revelou a pobreza interior e os fez cair de joelhos, num desamparo total, ou numa prece agoniada?

Nesse sentimento de veneração religiosa, de adoração íntima e de aspiração pessoal dirigidas a um Poder e a uma Mente invisíveis, acima de si próprio, o homem galgou alturas a que animal algum logrará segui-lo. Só o homem pode passar do sentimento intuitivo para o pleno florescer da experiência mística de seu Eu Supremo, que os homens denominam a alma interior.

É isto que o liga à existência suprema, e é um raio dela, a Mente Universal, que os homens chamam Deus.

O orgulho arrogante que vem de um intelecto bem desenvolvido é um poderoso obstáculo no caminho que conduz à verdade filosófica. Ministra ao ego uma presunção acerca da própria importância que o impede de prestar a humilde obediência ao Eu Supremo, pré-requisito indispensável à auto-revelação deste último.

Se o estranho mistério que se esconde dentro da vida e dos homens tem zombado das mentes mais agudas, é porque eles tentaram impor suas próprias condições à sua solução, em lugar de aceitar as que inerem inexoravelmente a ela. O Eu Espiritual só pode revelalr-lhe a sua natureza pela intuição, e não pelo pensamento, embora o pensamento possa ser usado como trampolim para chegar à intuição.


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