O DILEMA DAS GRANDES CIDADES

 Nas cidades forças de todo gênero lutam pela primazia; ambições de todas as categorias lutam por prêmios em trajes tentadores. O campo dos negócios torna-se, às vezes, como um campo de batalha, em que pelejam gigantes da inteligência e da astúcia. À semelhança de um moinho imenso, cada cidade extrai de seus habitantes tudo que eles possuem de habilidade, energia e coragem.

A vida citadina desenvolve a mentalidade humana. Sua competição aguça a faculdade humana. Isso é bom quando equilibrado por sentimentos mais belos, mas é mau quando não existe o equilíbrio. 

A vida nas cidades maiores estimula a inteligência, promove a ambição e desenvolve a personalidade, ao passo que a vida nas fazendas enrijece o corpo, aumenta a confiança própria, mas achata a personalidade.

Os homens e mulheres que vivem em cidades demasiado desenvolvidas perderam em grande parte o contato direto com a Natureza que possuíam seus antepassados lavradores. Os valores e virtudes que a vida na cidade desenvolve na humanidade se convertem em deméritos e vícios quando levados ao excesso.

Quando uma área metropolitana não é restringida em certo ponto, cria perturbações, perigos e males. Passa a concorrer para o materialismo sem alma de seus habitantes. O tamanho dessa colmeia humana que é a metrópole moderna tornou-se hoje estupidamente inconveniente. As próprias dificuldades de transporte interno acabarão impondo, com o tempo, uma redução ou um novo arranjo.

O célere crescimento de enormes centros comerciais e industriais acarretou uma existência artificial, antinatural. Esta, por sua vez, redundou em desequilíbrio mental e enfermidade física. A vida de uma família que só conhece calçadas de pedra dura, muros confinantes de tijolos e tetos baixos de estuque, que olha para as árvores, para a relva e para as flores com tímido assombro, como coisas não familiares, que está incessantemente exposta aos ruídos enervantes da existência urbana, é uma vida que corre o risco de ser espiritualmente ferida.

Aqueles que vivem em feias vielas ou nos distritos superpovoados, de ruas sem árvores, não têm os mesmos horizontes mentais dos que vivem em avenidas arborizadas. Com o uso cada vez maior dos veículos a motor e a consequente conversão das ruas em exasperantes centros de ruído, pressa e atividade incessante, cada cidade gigantesca passa a ser mentalmente venenosa para a raça humana, gerando tensões psicológicas e dissociações espirituais. Os ruídos estridentes desgastam os nervos e conturbam a saúde mental. 

O desejo ardente da beleza verde e da paz leniente do campo, que se expressa em escapadas de fim de semana para fora da cidade, ou em jardinzinhos em volta da casa, é no fundo um desejo espiritual. O rompimento de todo contato com a Natureza durante longos períodos priva o morador das cidades de um alimento vital para seu eu interior.

Quando um homem sensível percorre uma rua, depois de terem sido seus sentimentos purificados pelos bosques solitários da Natureza, sente-se distante daquelas casas, que tantas vezes não são lares, senão barricadas de tribulação.

Para o Ocidente, chegou o momento em que a vida mais simples é o único caminho para a vida mais sadia, e a recusa de aceitá-la conduz à doença, decadência e autodestruição.


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