INDÍCIOS INICIAIS DO ESTADO MEDITATIVO
Se fixardes vossa atenção na pergunta "Quem sou eu?" e tentardes encontrar sua solução com todo ardor que puderdes, época chegará em que, um dia, durante vossa prática de quietude mental, estareis tão profundamente empenhados neste esforço, que ficareis em grande parte alheios ao que se passa ao vosso redor.
Esta condição de intenso devaneio vos propiciará o estado adequado pelo qual se poderá dar o grande acontecimento da auto-revelação.
Em verdade, obter acesso a sua própria alma não é uma façanha tão rara como talvez o pareça. Muitos são os que preparam, sem o saber, as condições apropriadas para isso. Fá-lo o artista, quando abstrai sua mente das circunstâncias externas, arrebatado e absorvido por sua arte. Ele experimenta o êxtase num grau menor, e se esquece em sua obra ou visão.
É neste estado que os gênios produziram suas mais finas criações, suas melhores obras. Um escritor perdido em lucubrações sobre seu tema, tem sua mente tão profundamente mergulhada numa simples sequência de ideias que chega a não reconhecer as coisas, pessoas ou acontecimentos ao seu redor.
O pintor se absorve tanto na contemplação do quadro que está produzindo que se esquece do perpassar das horas, e mais que tudo, o rapto do músico no entusiasmo da composição musical. Todos esses estão inconscientemente praticando a meditação. Mas vós, que seguis a senda da auto-pesquisa, a estais praticando conscientemente.
Quando Leonardo da Vinci se sentia minguado de ideias criadoras, lhe bastava atentar para um monte de cinzas, por exemplo, que de sua concentração nascia um devaneio, do qual brotavam as ideias que estava necessitando.
Sir Isaac Newton, numa manhã de sol já alto, foi encontrado sentado na cama, semi-vestido, mergulhado em meditação, e numa outra ocasião permaneceu por longo tempo em sua adega, onde uma sequência de ideias se havia apossado dele ao ir apanhar uma garrafa de vinho para seus hóspedes.
À medida que a concentração se aprofunda, o mundo externo vai sendo lentamente esquecido. As câmaras mentais se tornam vazias de todo pensamento, exceto esta dominante expectativa por uma resposta vinda do Eu interno.
Neste estágio, cessareis qualquer esforço, não procurareis efetuar nada, mas antes permitireis que algo seja efetuado em vós, substituireis o intelecto argumentador pela fé, pela santa expectativa e sublime confiança.
Daí em diante, o que for feito o será pela ação divina e não pela vossa. Não mais perguntareis, mas vos submetereis sem questionar àquilo que apela ao mais íntimo de vosso ser. Deixai que este ser interno se aposse de vós e vos controle. Instintivamente recuamos amedrontados diante do misterioso estado em que nossos sentidos se perdem; no entanto é o estado em que não há temor e nada a recear.
"O silêncio é Deus", diz um escritor francês. Sim, mas o silêncio de corpo, pensamentos e desejos, e não meramente o silêncio auricular. Neste momento sublime, a divindade começa a tomar posse de vossa alma; tudo que vos cabe fazer é praticar a integral submissão.
Colocar-se nesta atitude de escuta, seguindo o fio da intuição, não deixa de ser uma curiosa experiência. A máquina do mundo parece estacionar, e de dentro deste ponto, que sois vós mesmos, o Absoluto começa a emergir. Esta é a hora maravilhosa e transcendental, em que a mente pela primeira vez rompe o casulo por ela mesma criado.
A resposta a vossa silenciosa invocação chega primeiro sob a forma de pálida e, de início, imponderável intuição, uma orientação interior. Guiados pelo fio ariádnico da intuição desperta, sois trazido ao vosso lar materno. Ou a resposta pode tomar a forma de uma mensagem, que será imprimida em vossa mente como vívidas palavras.
Então descobrireis dentro de vós um templo curioso, onde sereis ao mesmo tempo pregador e ouvinte. Gradativamente surgirá uma misteriosa condição, em que a gente se torna esquisitamente apercebido desta sensação de "ser outrem". É como se uma parte de nossa natureza observasse o que a outra parte não observa.
Notareis que este limiar sagrado invisível é realmente feliz. No entanto, as melhores e mais elevadas aspirações do homem estão bem aquém do tesouro que ele ainda tem de alcançar. Ou diante do vosso olho mental pode delinear-se um brilhante quadro simbólico. Podereis ver uma cruz com um círculo se expandindo em cores gloriosas, ou como uma radiante estrela pentagonal.
Ou podereis experimentar apenas uma tocante ternura no coração, uma suave sensação de engolfamento num esplêndido repouso. Os que varam anos solicitando alguma insinuação ou revelação de seu augusto hóspede interno, com o tempo receberão uma rica recompensa. Um simples vislumbre que obtenhamos daquele misterioso ser, nos tirará os aborrecimentos da vida e os submeterá a nossos pés.
Uma santa palavra de seus lábios oraculares ministra uma bênção que inunda nosso pequeno eu de alegria cósmica.
Quantas pessoas já ouviram o suave murmúrio de seu ser interior ou perceberam sua delicada orientação, somente para logo apagá-las sem nada entenderem? Quantas rejeitaram como meros pensamentos as primeiras insinuações da vida mais divina?
Pois este centro magnético profundamente enterrado na carne do homem, que constitui sua natureza essencial e real, que é o pai de todos seus atos mais delicados, às vezes revela sua presença em nada mais tangível do que essas delicadas exortações.
Às vezes as maiores verdades penetram em nossas mentes sem qualquer prenúncio. Apenas sabemos que ontem não pudemos aceitá-las, porém que hoje as sustentamos alegremente. Tal é o que ocorre ao homem; começam a incidir sobre ele os primeiros raios do sol da imortalidade.

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