A VERDADE INTERNA É A MESMA PARA TODOS
A verdade se acha escrita no organismo humano não menos seguramente do que nos livros inspirados. Na vasta sociedade do universo, o homem possui um estatuto melhor do que o que acaso tenha concebido. Na maioria dos momentos de secreta quietude mental, são lhe transmitidas insinuações relativas à grandeza inata da alma.
Esta sabedoria é a mais antiga do mundo. Muito além dos limites atingíveis pelas mentes mais capazes, antes que a primeira pena o descrevesse, milênios antes de Buddha e Zoroastro, esta singela e simples Verdade de que o homem pode conscientemente unir-se com o Divino mesmo habitando um corpo, já foi ensinada aos que a aspiravam.
A universalidade da experiência do Eu interno é testemunha autêntica de sua realidade. As literaturas de todos os países, as filosofias e religiões de todos os tempos, dão testemunho de sua veracidade. Diferentes povos em diferentes países têm dado diferentes nomes a esta experiência secreta.
Alguns cristãos a chamam "união com Deus", ao passo que os santos hindus a chamam de "união com o Eu espiritual". Certos filósofos a descrevem como "imergir no Infinito", e outros como "achar a Verdade". Não importa o rótulo, os sábios jamais querelarão por isso, pois as palavras insinuam mas não podem descrever a plenitude desta experiência.
O místico hindu e o hebreu, o filósofo platônico e o pitagórico, o moralista chinês e o cristão, falam todos a mesma linguagem e conversam no mesmo tom, desde que os ouçamos corretamente. Não importam as diferenças de credos, nem a multiplicidade de teologias.
A Verdade é a branca luz espiritual que incide sobre o prisma do gênero humano e se fragmenta nas múltiplas cores pelas quais os indivíduos a interpretam. Assim a experiência de seu descobrimento é a mesma em todo o mundo: o que difere é a interpretação de cada um.
A confusão de dogmas religiosos e a interpretação errônea das experiências pessoais produziram a contraditória massa de doutrinas que, no conjunto, são chamadas de místicas. A inabilidade para adotar uma atitude extremamente científica para com esta matéria, se deve à ofuscação do primeiro objetivo da meditação.
Idealizaram-se várias sendas para lograr este objetivo, porém uma multidão de mentalidades tacanhas tomou equivocadamente a senda pela meta. Meditação, yoga, misticismo etc. têm apenas um propósito fundamental, apesar do que possam dizer os expoentes sectários ou os aderentes equivocados.
Em outras palavras, práticas religiosas avançadas, métodos de meditação, culto extático de santos etc. são todos meios de auxiliar o homem a atenuar a corrente de pensamentos, até finalmente fazê-la parar por completo. As mentalidades sectárias se oporão sem dúvida a isto, mas sua negação corresponde simplesmente a uma negação dos verdadeiros fatos.
Só as almas maduras e perspicazes podem perceber esta verdade. Tão só estas, pelo esclarecimento de sua compreensão sobre este assunto, podem escapar do nevoeiro espiritual em que a maioria dos estudantes e devotos se movem habitualmente. Tão só estas sabem que a ausência de qualquer credo em alguém não o torna menos suscetível de êxito do que seu mais religioso irmão.
O que o yogue hindu avançado experimenta como Nirvana, é substancialmente a mesma condição de que o místico cristão avançado experimenta como Deus. Se ao recordar ou descrever este estado sublime, lhe empresta o cunho de doutrinas teológicas ou regionais peculiares a uma raça ou país, devemos atribuir esses acréscimos à sua fonte verdadeira: preconceitos pessoais ou inclinações mentais do vidente, e não à iluminação em si.
A iluminação, em seus variados graus, é a mesma para todos os indivíduos. Cada místico redescobre o mesmo tesouro oculto, mas suas descrições desse tesouro podem divergir lamentavelmente, por diferir sua interpretação intelectual e emocional do mesmo. Existem graus da própria iluminação, e na maioria dos graus mais avançados todos os videntes obtêm a mesma experiência e estão em perfeito acordo em sua compreensão. Mas estes são os poucos e raros; são os iluminados imortais entre os homens.
Em todos os séculos e em todos os países têm ocorrido vislumbres e experiências temporários de natureza mística, mas escasseiam as interpretações inteligentes dessas experiências.
A sabedoria antiga não depende de raças, como o testemunha Thoreau entre os americanos e Shânkara entre os hindus. Transpõe os séculos, como se vê em Rabindranath Tagore hoje, e em Meister Eckhart há seiscentos anos atrás. Não a afetam os climas: Milarepa, o encapuçado eremita tibetano, habitando num planalto gelado, chega por fim à mesma Verdade de Plotino vivendo no tórrido Egito.
Idêntica experiência interna informou os lindos poemas de Jelaludin Rumi, como inspirou os elegíacos versos cristãos de Francis Thompson. As inspirações da primitiva Roma se rivalizam com as inspirações da primitiva China. Em todos eles impressiona a similaridade; os pensamentos são idênticos, mas suas vestimentas estão necessariamente sujeitas a gostos pessoais e costumes raciais.


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