A IDENTIFICAÇÃO COM O CORPO
É necessário vencer as tendências para a completa auto-identificação com o corpo, os desejos e o intelecto, que hoje é encarada como normal e natural. Desde tempos imemoriais a raça humana tem se comprazido nestas tendências, e daí nasceu a tão comum identificação do eu com o corpo.
A cura está em eliminar gradativamente estas tendências pela reiterada busca do verdadeiro Eu, o Super-Eu, nos momentos de quietude mental, e pela constante auto-observação nas horas vagas durante o dia.
Não importa qual a profundidade de radicação em si destas tendências; pelas práticas da meditação elas poderão ser apagadas progressivamente. O intelecto que seja reiteradamente voltado para o interior, para a auto-indagação, tenderá com o tempo a esse hábito, e começará automaticamente a apresentar-nos à luz do Super-Eu nossas cambiantes emoções, desejos, pensamentos e ações, isto é, como coisas que estão sendo experimentadas dentro de nós mesmos, porém que não passam de meras respostas mecânicas a estímulos externos.
Um dos resultados da prática de auto-indagação será uma mudança gradual de atitude do estudante para com as coisas, pessoas e acontecimentos. Começará a expressar qualidades que são naturais ao Super-Eu, as qualidades de nobre visão, perfeita justiça, e o tratamento de seu próximo com a si mesmo.
Que volte repetidamente sua mente para AQUELE que é o expectador silencioso dentro de si mesmo, e fixe-a ali. Esta introversão é um processo mental, uma atividade intelectual baseada numa atitude de auto-inquirição, mas no estágio a seguir há uma submissão de todos os pensamentos ao sentido intuitivo que brota do interior e que guia nossa percepção até o Mais Íntimo.
O estudante tem sempre exercitado seu intelecto e emoções, mas raramente a intuição; daqui em diante deve começar a mudar de atitude, arrancando seu sentimento intuitivo do estado latente, tanto quanto possível.
Levará tempo essa busca da reta intuição em meio do emaranhado de sentimentos e pensamentos que normalmente compõem nosso eu interno, porém a inquirição persistente a descobrirá.
Não há nenhum momento do dia em que não possa desviar proveitosamente a corrente do pensamento para procurar dentro de si, e afirmar, o Super-Eu. Tem de começar a cavalgar o ginete mental e impeli-lo na direção interna.
Iniciará esta busca no estado comum de escuridão espiritual, na condição comum de auto-esquecimento, de vítima dos desejos e repulsas surgidos mecanicamente. Mas se perseverar nestas práticas, sentirá gradativamente uma maior liberdade em sua caminhada para seu interior.
Não existe felicidade para o homem que não é livre. Quer se trate de um rei aprisionado em seu palácio por seus deveres, ou de um réu confinado na cela de uma prisão, é um truísmo dizer que sua alma ama a liberdade. Aqui deparamos com uma indicação quanto à natureza da felicidade. Liberdade eterna e imutável deve fazer parte dessa felicidade, e uma liberdade desta espécie jamais se poderá encontrar senão no Super-Eu.
Prossegue, assim, por graus imperceptíveis, até fazer o pensamento retornar à sua mansão oculta. Enquanto estivermos escravos do pensamento, a intuição estará fora de nosso alcance.
Sigamos o caminho da auto-pesquisa constante e faremos o próprio pensamento servir-nos de um meio para atingir a libertação; então as próprias perguntas que nos formulamos serão degraus que nos levarão ao estado silencioso do Super-Eu.
Podemos dizer que a pessoa existe em virtude da permissão do Super-Eu através da força vital. Os pensamentos, desejos e ações resultantes de uma pessoa estão normalmente quase por inteiro ocupados com as coisas pertencentes ao mundo externo. Podemos imaginar o eu pessoal sentado dentro do corpo humano e constantemente ocupado em contemplar o mundo ao redor pela janela dos cinco sentidos.
O resultado desta preocupação com os objetos externos é ser o eu constantemente atraído ou repelido, conforme o caso, pelo afanoso pensar, desejar ou agir, até o ponto de haver o eu se esquecido totalmente de seu berço natal, que é o Super-Eu.
Assim ele caiu na posição irônica de um ser que não só perdeu toda recordação de seu Pai, mas praticamente nega toda possibilidade da própria existência do Pai. O Super-Eu é a fonte oculta de sua vida, cuja força o mantém e o capacita a captar a energia vital de que necessita para viver, pensar e sentir.

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