A GRAÇA NO DESPERTAR ESPIRITUAL

 O despertamento para a consciência espiritual é algo que não se pode desenvolver apenas por um sistema mecânico e medido. "A arte acontece", exclamou Ruskin, e o mesmo ocorre com a espiritualidade. O aspirante põe em prática certos exercícios, sejam de meditação ou relaxamento, sejam de auto-observação ou auto-recordação, pratica seus esforços de reflexão interrogativa, e um dia a verdadeira consciência parece chegar-se a ele, silenciosa, suave e seguramente.

Esse dia não pode ser predeterminado. Poderá vir logo no início de seus esforços, ou somente após longos anos de luta decepcionante. Pois depende de uma manifestação da Graça da parte do Super-Eu, de uma energia mais profunda do que sua vontade pessoal, que agora começa a participar deste jogo celeste.

Uma vez que a Graça atue num homem, não há como escapar. Silenciosa, gradativa mas perceptivelmente ela o conduz para o interior. Não me agrada muito empregar o termo Graça. Traz tantas implicações teológicas desagradáveis e inexatas que, se pudesse encontrar outro melhor, eu o deixaria de lado.

Mas isso não me é possível. Assim me esforçarei por emprestar-lhe um significado baseado em experiências espirituais comprováveis e não numa crença cega. Graça é o pré-requisito essencial para a iluminação. Contudo, não podeis propiciá-la; só o pode vosso Super-Eu ou um verdadeiro Adepto.

A Graça pode cair com espantosa e inesperada celeridade num homem que tenha vivido o que o mundo chamaria uma vida pecaminosa, e transforme muito rapidamente seu coração, mente e consciência.

A Graça pode afastar-se de um homem que tenha passado vinte anos estudando obras e obras sobre religião e filosofia. Sua operação é amiúde obscura, às vezes súbita e misteriosa, e não raro secreta para outros homens. Contudo para todos ela não é uma força arbitrária. Possui suas próprias leis e maneiras de operar, porém só um verdadeiro Adepto está em condições de verificá-las.

Para obter esta Graça, devemos pedi-la. Isso não significa que o pedido seja feito apenas por ações verbais. Poderá isto bastar para alguns; para outros o pedido só poderá ser feito mentalmente. Mas à maioria de nós cabe pedi-la com toda sua vida. Nossa norma de conduta, nossos sacrifícios da senda florida, nosso tempo útil mesmo, devem mostrar e expressar este grande desejo.

E podemos ser até forçados a inclinar-nos genuflexos, em inesperadas horas da noite ou do dia, para suplicar que nos seja concedida a Luz. Se isto acontecer, não lhe resistamos nem nos ressintamos. Cedamos, e se sentirmos um ímpeto de chorar ao solicitar a Graça do Super-Eu, deixemos então fluir copiosamente as lágrimas que brotarem.

Não as reprimamos. Há um grande mérito espiritual em chorar pela visitação de um poder superior. Cada lágrima dissolverá algo que se interponha entre nós e a divina união. Nunca nos envergonhemos de tais lágrimas, pois caem por uma boa causa.

Tenho ouvido falar de uns poucos que obtêm a Graça sem trabalhos ou sacrifícios. Esses poucos que a recebem aparentemente como uma súbita dádiva, caída dos céus, não significam nenhuma exceção à regra de pedir. A diferença é que suas aspirações foram expressas e ouvidas em existências anteriores, em outras encarnações.


O destino tem algo a fazer com a matéria, e ministra detalhadas explicações de seu comportamento aparentemente errático somente às almas ardentes que obtiveram seu segredo.

Quando a Graça desponta de nosso próprio Super-Eu, este desperta um certo anseio no coração e começa a conduzir nossos pensamentos por certos canais. Tornamo-nos satisfeitos com a vida tal qual é; principiamos a aspirar algo melhor; iniciamos uma busca de uma verdade superior à crença que até então nos sustentou.

Imaginamos, aliás muito naturalmente,  que a mudança se deve a um desenvolvimento mental, ou às vezes à mudança de circunstâncias. Mas não é assim. Velado atrás do mistério que é a vida, move-se o invisível Super-Eu, o augusto ser que assim tão estranhamente interrompeu nosso sono mortal.

A própria busca da Verdade era simplesmente a busca do Super-Eu. Talvez encontremos uma filosofia mais valiosa da vida, que assim nos aproxime um pouco mais da verdadeira auto-realização. Mas os pensamentos e atitudes em ascenção daquele cambiante período - seja de uma semana ou de anos - são apenas uma manifestação da Graça.

Difícil é de conceber esta verdade, de que o apelo aspiracional deva vir até nós; não o fazemos vibrar com nosso próprio acorde. Devemos atirar-nos prostrados aos pés do Eu Real e suplicar sua Graça.

Quando em nossos corações se desperta o fogo da aspiração divina, podemos saber que nos foi concedido um pouquinho da Graça. Nós, os servidores desse majestoso Monarca, devemos aguardar seu beneplácito. A Graça é uma dádiva, um favor a receber das mãos do deus interno. Todavia ele não pode descer em qualquer momento arbitrário. Via de regra, ele vem quando estão amadurecidas as condições corpóreas, ambientes e experimentais.

Não somos nós, mas o Espírito que escolhe sua hora. O amadurecimento da alma para esta profunda experiência da união com o Super-Eu se opera gradativamente, tal qual o amadurecimento de uma fruta. Mas tão logo esteja completo o crescimento, a união subjuga a alma súbita e irresistivelmente, e o homem realmente nasce de novo.

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