CONDIÇÕES PARA O ÊXITO NA MEDITAÇÃO
São necessárias certas condições fisiológicas e psicológicas para se lograr bom êxito na concentração, sem muita dificuldade. Uma postura cômoda e conveniente do corpo ajuda a mente a acalmar-se. O corpo em desconforto tende a tornar a mente intranquila.
A quietude física é o primeiro passo para a quietude mental. A postura conveniente e confortável do corpo repousa a mente e habilita-nos a iniciar a tarefa da interiorização. Dirigi-vos cada dia para o mesmo local ou cômodo tranquilo, ocupai sempre a mesma cadeira ou a mesma cama.
A meditação prosseguirá mais facilmente e dará melhores frutos se a fizermos nas condições adequadas. Devemos escolher a hora em que ninguém nos perturbe, quando tudo em volta de nós esteja quieto, quando o estômago e órgãos digestivos estejam em repouso, o corpo se sinta bem e o tempo não seja tempestuoso.
Se for também possível, adornemos com flores nosso melhor aposento e o perfumemos com incenso. Coloquemos nas paredes apenas belos e sugestivos quadros coloridos. Que esse recinto se converta num santuário que nos ajude a permanecer por algum tempo entre as coisas divinas.
Reservemos esse cômodo só para nosso uso pessoal e tanto quanto possível um lugar onde possamos meditar, orar e estudar as coisas do Espírito. Em pouco tempo notaremos nesse ambiente o começo de uma marca invisível de uma vida mais divina, de maneira que assim que nele penetramos desaparecem de nós as preocupações e aflições da existência mundana.
Assim, escolhamos um lugar onde nossa solidão não seja interrompida, onde insetos e animais não nos incomodem e onde enfim nos possamos sentir em harmonia e paz.
Na impossibilidade de conseguir todas essas condições, consigamos as que forem possíveis. Assim a primeira regra é reservar uma pequena fração diária de nossa vida, em que possamos dedicar-nos tranquilos e imperturbáveis à prática dos exercícios necessários.
De início começaremos com dez minutos, procurando estender esse período até meia hora tão logo sintamos que podemos fazê-lo sem tensão indevida. Meia hora diária já é muito tempo para o ocidental comum despender na meditação e não é aconselhável prolongar esse tempo senão sob a supervisão de um instrutor competente.
É melhor fazer a meditação na parte da manhã, mas é bem possível a existência de circunstâncias que vos impeçam de empregar esse período. Se assim for, a hora recomendável é ao por do sol, pois então a calma interior retorna mais rapidamente à mente do que no meio das atividades do dia. Há uma misteriosa qualidade no crepúsculo, que o vincula às grandes correntes espirituais que a Natureza libera em ritmos regulares.
Se não pudermos contar com o crepúsculo, a melhor hora será à noite, antes de nos deitarmos. Se todavia esses três períodos ainda falharem, devemos então procurar meditar em qualquer meia hora roubada ao nosso programa diário.
A fração de tempo que tivermos escolhido para tão alta finalidade deve ser utilizada de maneira que a isole completamente das outras atividades do dia. Em vez de nos ocuparmos com algo que atraia e prenda nossa atenção em assuntos externos, procuremos esquecê-los, pô-los de lado durante todo esse tempo como se nunca tivessem existido, e a dirigir nossos pensamentos e sentimentos com o ideal da calma interior como nossa meta.
Até agora talvez tenhamos dado toda nossa atenção ao mundo externo. O homem que aspire a compreender a si mesmo deve inverter esse processo e periodicamente desviar essa atenção para explorar o mundo interno.
Quem aspire a tentar conhecer seu Super-Eu deve aprender a recolher-se em sua mente como a tartaruga se recolhe em sua concha. A atenção que até agora tem estado dispersa numa sucessão de objetos externos, deve estar agora concentrada num simples foco interno.
A senda da concentração é fácil de descrever, mas difícil de praticar. O que devemos fazer antes de mais nada é esforçar-nos em afastar de nossa mente todo e qualquer pensamento que não seja a única linha de reflexão que fixamos como o tema de nossa concentração - mas tentemos.
O controle do pensamento é difícil de se obter e suas dificuldades nos surpreenderão. Nosso cérebro se rebelará. Tal qual o mar, a mente humana está incessantemente ativa. Mas tal controle pode ser feito.
No centro de nosso ser mora esse Eu maravilhoso, porém para atingi-lo temos de abrir um canal através de todas as touceiras de pensamentos que o cercam e que nos fazem prestar incessante atenção ao mundo material, tomando-o como única realidade.
Ondas infindáveis de pensamentos nos perseguem e oprimem; atormentam-nos durante as insônias da noite e durante o dia permanecem grudados sobre nós. Se pudéssemos apenas aprender o segredo de seu domínio e supressão, poderíamos mergulhar num maravilhoso repouso, numa paz semelhante à que, segundo São Paulo, "ultrapassa o entendimento".
Os cinco sentidos nos prendem ao mundo material como se fossem de goma e querem um contato físico constante em forma de objetos, pessoas, livros, divertimentos, viagens e atividades de toda espécie. Só podemos matar nosso inimigo nos momentos em que os sentidos guardam silêncio.
Quando tentamos praticar o repouso mental, eles protestam imediatamente e gritam: "Queremos ficar no mundo que conhecemos, temos medo de meditação e desse além desconhecido; é natural que nos agarremos ao mundo da matéria; deixem-nos!"
E assim fazem o possível para nos manter presos ao mundo sensorial. É essa a verdadeira razão pela qual cremos que a meditação não nos agrada e nos afastamos dela quando o momento de realizá-la chega. São nossos sentidos que se opõem, não nós. Assim devemos lutar contra eles e tentar dominá-los. Primeiro vem o esforço mental, depois a quietude compensadora.
Dominar a mente é dominar a si próprio. A alma que controla a maré crescente e sempre ativa dos pensamentos, pode vestir a farda de capitão e dar ordens a toda a Natureza. O poder de manter-se tenazmente numa linha de pensamento, aferrando-se nela como o aguilhão do escorpião, e sem largá-la - eis o que se chama poder de concentração - a força que faz dos homens verdadeiros amos e senhores do pensamento!
Se nos sentimos incapazes de nos concentrar, então um pouco de prática diária nos propiciará a capacidade que nos falta. Os que procuram meditar, nem que seja durante meia hora, com o tempo dominarão a corrente tempestuosa de seus pensamentos vadios.
Advertência: quando a debilidade moral e o desequilíbrio emocional se unem às práticas, o resultado será a regressão da mente ao estado de mediunidade e jamais a elevação da mente até a espiritualidade.
A prática da meditação não acompanhada do cultivo dos princípios éticos e intelectuais pode levar a um engano sobre si mesmo, ao aumento do egoísmo, à alucinação e finalmente à loucura.
Recomenda-se portanto ao aspirante não buscar o caminho rápido e fácil para chegar às experiências ditas ocultas, mas sim um cuidadoso enobrecimento de caráter, a firmeza de atacar pela raiz seus erros e um harmônico equilíbrio entre a intuição, a emoção, o pensamento e a ação.

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