A VOZ DA ALMA
Na natureza a soberania pertence às forças silenciosas. A lua não faz o menor ruído e apesar disso arrasta milhões de toneladas de água do mar no vaivém obediente ao seu comando; não ouvimos o sol se levantar, nem as estrelas se ocultarem. Assim também a aurora da nova vida surge silenciosamente no homem, sem que nada a anuncie ao mundo.
Só na quietude pode o conhecimento do Super-Eu manifestar-se. O deslizar da jangada mental sobre as águas do Espírito é o prodígio mais suave que conheço, muito mais silencioso que o cair do orvalho noturno.
Somente em profundo silêncio interior podemos ouvir a voz da alma; os argumentos a ocultam e o excesso de palavras a emudece e abafa. Ao apanhar o peixe podemos reparti-lo, mas enquanto pescamos o falar rompe o encanto e afugenta o peixe. Se conseguirmos dar menos atividade à laringe e maior atenção às atividades profundas da mente, chegaremos a ter algo realmente valioso a dizer.
A palavra é um auxílio, não uma obrigação. Ser é o primeiro dever do homem. A vida nos ensina silenciosamente, enquanto os homens instruem em voz alta.
A preciosa descoberta do verdadeiro Eu dentro de nós só pode ser feita quando a mente estiver em repouco; as palavras apenas confirmam a realidade, mas não a explicam e jamais a poderão explicar, pois a Verdade é um Estado de Ser e não uma torrente de verbosidade.
O argumento, por mais inteligente que seja, não substitui a realização pessoal. Devemos experimentar se quisermos viver a experiência. A palavra Deus não terá sentido para mim antes de conseguir pôr-me em contato com o Absoluto dentro de mim mesmo. Só então poderei incluí-la em meu vocabulário.
Um pouco de prática leva muito longe; uma série de conferências não convencerá o cético e cem livros não revelarão na visão interior aquilo que podem vislumbrar aqueles que aplicam fielmente o método indicado pelos grande Videntes.
Quem praticar assídua e seriamente um método de concentração mística receberá crescente confirmação, por experiência própria, da verdade da divindade do homem. As bíblias e outros escritos similares começarão então a perder sua autoridade à medida que ele comece a achar a sua própria.
Encontrai Deus dentro de vosso próprio coração e compreendereis, por intuição direta, o que todos os grandes instrutores, todos os verdadeiros místicos, todos os autênticos filósofos e homens inspirados tentaram explicar pelo método tortuoso das palavras.
Jamais podereis provar ao meu intelecto o fato de que Deus, ou o Absoluto, o Espírito universal, ou como queirais chamá-Lo, existe; mas podeis mostrar-me isto se minha consciência se transformar de tal modo que me permita participar da íntima percepção do Deus interno em mim.
Deixemos o prumo de nossa mente mergulhar em nossa profundeza. Quanto mais profundamente tocar o abismo, tanto mais fabuloso tesouro poderemos extrair desse calmo mar. Cada um possui uma porta secreta que se abre para a Luz, mas se não quiser fazer o esforço para abri-la, condena-se a si próprio a permanecer em trevas.
Se quiserdes uma prova de vossa própria divindade, escutai vosso Super-Eu. Escolhei entre as horas uma em que estejais seguramente livre de qualquer distração exterior. Estando a sós, com paciência e muita atenção escutai o que vos dirá a alma. Repeti a prática espiritual diariamente, e um dia, quando menos esperardes, essa prova virá iluminar vossa solidão.
Com ela virá uma liberdade gloriosa quando vos abrandarem os fardos das teologias ou os ceticismos forjados pelo homem.
Aprendei a por-vos em contato com vosso Super-Eu e nunca mais vos sentireis atraído por essas reuniões fúteis em que os homens levantam a poeira das argumentações teológicas ou o ruído dos debates intelectuais.
A única maneira de entender o que significa exatamente a meditação é praticá-la. Nem quatro mil volumes de metafísica vos ensinarão o que é a alma, disse Voltaire.
Como tudo que tem valor, os resultados da meditação se adquirem com muita lentidão, trabalho e dificuldade; porém quem a pratica com o espírito requerido pode estar certo de alcançar a meta.
A vida moderna exerce sobre nós uma espécie de hipnose, apoderando-se de nosso espírito como sanguessuga do corpo. Nosso apático eu consciente aduz toda espécie de desculpa para não iniciar essa prática, ou não continuá-la se a iniciou. Nossa personalidade a acha enfadonha, vazia ou demasiado cansativa.
Essa luta inicial para vencer a repugnância do cérebro para com o repouso é talvez a mais árdua, mas deve ser travada. Contudo é um hábito de importância vital, cujos benefícios não podem ser demasiadamente exagerados, mas se negligenciado conduz a tristezas e aflições.
Além das trivialidades da vida diária há uma existência mais bela e mais luminosa. Nunca cogitamos da vida interna. Procuramos persuadir-nos de que não dispomos de meia hora para ficarmos sentados junto à tranquila fonte da Verdade.
Um momento de quietude mental é encarado como um momento desperdiçado. Daí porque as massas populares não se portam mais sabiamente durante sua multidão de dias.

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