ENCONTRO SRI RÁMANA MAHARSHI EM LONDRES EM MEDITAÇÃO
Refugiei-me algumas horas num parque verde de Londres para ali gozar da companhia das árvores amigas. Sentei-me na grama e cerrei os olhos, sentindo um bem-estar tão grande após o barulhos estridente e confuso da cidade.
Não se ouvia nada. Uma quietude beatífica da natureza insensivelmente me penetrava. Contudo, arrastado por velho hábito, apanhei no bolso uma caderneta de notas e fiquei na expectativa, com a caneta na mão, procurando captar o voo tênue dos pensamentos e belos sonhos que nos passam pela mente quando tudo está em paz.
Naquele silêncio da natureza me achava mais à vontade que em luxuoso salão, e em companhia das faias de tronco prateados senti uma presença mais sincera e mais bela que a dos seres humanos.
Era uma amena tarde de outono. O chão em volta de mim estava cheio de folhas vermelhas e douradas, caídas das árvores. O sol do entardecer inundava a paisagem em sua luz profusa. As horas passavam insensivelmente; o suave zunido dos insetos levantava-se em intervalos para logo esvanecer-se no espaço.
Minha muda permanecia inerte entre os dedos. Esperei em vão pela inspiração; fechei a caderneta e guardei a caneta no bolso. Levantei-me e pus-me de volta para casa.
De repente, tive uma impressão estranha de suspensão da vida; uma névoa estendeu-se diante dos meus olhos, cobrindo-os e tornando-os insensíveis ao ambiente que me rodeava. Ao invés do sangue, uma corrente ígnea parecia-me fluir impetuosamente nas veias e brilhar uma luz dourada dentro do meu coração.
Uma mão parecia me tocar o ombro, ergui a cabeça e vi um rosto cheio de doçura inclinar-se sobre mim. O sábio que eu tinha conhecido no Oriente apareceu diante de mim; seu grave rosto barbudo tão claro, tão reconhecível como se fosse de carne. Certamente se aproximou de mim com passos silenciosos como a queda do orvalho.
Com a devota humildade do meu coração que o venerava, cumprimentei-o e nos seeus olhos enigmáticos e luminosos percebi uma expressão de censura.
Fitando-me falou com voz meiga:
- Meu filho, isso não está bem. Esqueceste a compaixão? Pretendes partir para o Oriente para aumentar teu cabedal de conhecimentos enquanto outros estão famintos por migalhas de sabedoria? Queres comungar com os Divinos Seres quando ainda há homens que procuram Deus, mas só percebem a barreira intransponível do céu; quando há os que lançam suas preces num váacuo de que não lhes vem nenhuma resposta. Firma teus pés, se necessário; mas não te esqueças de teus irmãos em sofrimento. Não partas para as terras das palmeiras ondulantes enquanto não houveres meditado bem nestas palavras. Que a paz esteja contigo.
E de súbito, sem nada mais dizer, desapareceu de minha visão, tão silenciosamente como havia aparecido. O sábio sabia de minha intenção de viajar ao Oriente para adquirir mais conhecimentos.
Quando retomei consciência do que me cercava, a luz do dia havia-se apagado e as estrelas cintilantes começavam a surgir no céu. Levantei-me para retomar o caminho de casa. Compreendi logo que a admoestação era justa, eu só havia pensado em mim! Eu havia seguido a luz da estrela da Verdade, a estrela que mais me atraía em todo o firmamento, mas eu a havia seguido apenas para mim mesmo.
Festejei sozinho o banquete, saboreando realidades eternas. Poderei rejubilar-me em paz, guardando só para mim essas verdades? Quem sabe se, entre as numerosas almas do Universo, algumas delas receberão com fervor as ideias que lhes posso transmitir?
Se é muito grande o privilégio de sentar-se aos pés dos esquecidos, mas poderosos deuses, o dever de divulgar sua mensagem ao mundo desatento, mas sofredor, é tão elevado quanto nobre. Talvez não exista ser humano com mente tão encerrada na fealdade que uns tênues raios de beleza interna não o possam importunar de vez em quando e fazê-lo levantar um pouco a cabeça para as estrelas, ora perplexo ante o significado de tudo isso, ora maravilhado ante a incessante harmonia das esferas.

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